Resenha: Raul Seixas – Um pouco do pai do rock brasileiro

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                                   Raul Seixas e Paulo Coelho tocando “Ouro de tolo” na Av. Rio Branco
Em 1972 nos clássicos versos de “Imagine”, John Lennon anunciava sua versão para um sociedade utópica, sociedade que denominou de “Nutopia” em manifesto publicado em 1973. No mesmo ano, um outro músico no Brasil anunciava ao país a sua versão de sociedade utópica: Raul Seixas.

Naquele ano, o país vivia o período conhecido como “Milagre econômico” acompanhado de forte repressão aos movimentos contrários a ditadura militar. Boa parte da população se via contente com a estabilidade econômica e acesso a bens materiais que outrora as camadas médias urbanas não conseguiam. No entanto, em sua maioria, os mais jovens, começavam a contestar esta situação e principalmente este modelo de vida. Diferentemente da juventude pré 68, a geração pós AI-5 inaugurava uma nova forma de protesto.

Dos hippies aos anarquistas, os anos 1970 abrigaram diversas experiências de rejeição a todos os sistemas políticos estabelecidos, padrões de comportamento social e sexual, era o crescimento da contracultura no país. Erroneamente, estes seriam chamados de alienados pela dita esquerda politizada, porém, na busca por um novo modelo de sociedade e de vida, com suas roupas diferentes, cabelos desarrumados, uso de drogas com intuito de transcendência e práticas sexuais libertárias, constituíam uma verdadeira bofetada na cara do regime conservador e repressor que comandava o país. “Era preciso muita vontade e alguma coragem para ser hippie numa ditadura militar boçal e truculenta. Visados pela polícia, muitos foram confundidos com militantes da resistência armada, presos e torturados por engano”, comenta o produtor musical Nelson Motta no livro Noites tropicais.

Entre diferentes movimentos alternativos de contestação, um roqueiro baiano começava a se destacar com uma ideia de sociedade alternativa mais radical. Acompanhado pelo amigo e jornalista Paulo Coelho, Raul Seixas produziu sua obra fortemente marcada pelos escritos do mago inglês Aleister Crowley (1875-1947). Mago este que também influenciou os próprios Beatles – sua imagem apareceu até na capa do antológico disco Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967) -, e fez a cabeça de várias bandas de rock como Iron Maiden e Led Zeppelin. Seus escritos afirmavam que os desejos humanos não deviam sofrer nenhum tipo de restrição, desconsiderava noções de bem e mal e louvaria Deus e o Diabo na mesma proporção, o que o levou a ser considerado satanista na época.

As primeiras ideias da “Sociedade Alternativa” – nome dado pela dupla a sua forma nova de sociedade – seriam lançadas com uma genial, porém, inusitada estratégia de marketing da dupla. Proposto por Paulo Coelho, no dia 7 de junho de 1973, Raul Seixas convocou a imprensa para registrar sua aparição em plena Avenida Rio Branco, no Centro do Rio, violão em punho, cantando a música “Ouro de Tolo” ao lado do próprio jornalista e de outros seguidores. A estratégia deu tão certo que a cena foi exibida no conservador, mas já líder de audiência, “Jornal Nacional”. A canção era uma bofetada no conformismo nacional diante das vantagens ilusórias oferecidas pela ditadura, vejamos agora alguns versos e o vídeo da canção.

“Eu devia estar contente porque eu tenho um emprego
Sou o dito cidadão respeitável e ganho quatro mil cruzeiros por mês
Eu devia agradecer ao Senhor por ter tido sucesso na vida como artista
Eu devia estar feliz porque consegui comprar um Corcel 73
(…)
Eu devia estar contente por ter conseguido tudo que eu quis
Mas confesso abestalhado que eu estou decepcionado!
(…)
É você olhar no espelho e se sentir um grandessíssimo idiota
Saber que é humano, ridículo, limitado
E que só usa 10% de sua cabeça animal
E você ainda acredita que é um doutor, padre ou policial
Que está contribuindo com sua parte
Para o nosso belo quadro social”

“Ouro de tolo” é o nome que se dava na Idade Média às promessas de falsos alquimistas. Transferindo para o período de 1973, a música ironizava as aspirações e euforia da classe média brasileira que apoiava o regime militar em troca de ganhos materiais. Ser um cidadão trabalhador, respeitável, religioso seria um “ouro de tolo”, isto é, uma falsa realidade, uma felicidade enganosa e passageira. A música virou sucesso instantâneo. Contratado pela gravadora Philips, Raul Seixas juntou “Ouro de Tolo” a outras nove canções para lançar seu primeiro LP solo: “Krig-Ha, Bandolo!”, ainda em 1973.

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Disco Raul Seixas

No ano seguinte Raul Seixas, Paulo Coelho e outros chegam a fundar uma colônia no interior do RJ, a “Cidade das Estrelas”, para concretizar o sonho libertário. Contudo, também a ditadura começava a fechar o cerco sobre a dupla. Na música “Como vovó já dizia”, dois versos foram considerados subversivos – “quem não tem papel dá recado pelo muro” e “quem não tem presente se conforma com o futuro” (substituídas por “quem não tem filé come pão em osso duro” e “quem não tem visão bate a cara contra o muro”). Já em Maio de 1974, o Dops prendeu e torturou Raul Seixas: “Tudo para eu poder dizer os nomes das pessoas que faziam parte da Sociedade Alternativa, que, segundo eles, era um movimento revolucionário contra o governo”, contaria mais tarde.

FOTOGRAFIA:
IMAGEM 1: ARQUIVO MUSEU DA IMAGEM E DO SOM
IMAGEM 2: CAPA DO ÁLBUM (DISPONÍVEL NA INTERNET)
BIBLIOGRAFIA
PASSOS, SYLVIO E BUDA, TONINHO. RAUL SEIXAS: UMA ANTOLOGIA. SÃO PAULO: MARTIN CLARET, 2000.